Hospitalistas em Portugal: existem, mas fui sem saber
- Guilherme Barcellos
- há 12 horas
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A experiência foi em 2017, à convite da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna. Escrevi sobre isso, na época, em Saúde Businnes. Trago abaixo um texto reformulado. Antes da viagem, quando tentei sondar alguns contatos portugueses sobre a existência ou não de hospitalistas por lá, fui informado de que não havia. A principal razão para a informação era preservação e valorização de identidade própria. Explico melhor:
O termo hospitalista foi cunhado por um norte-americano em 1996. Nos EUA, representou uma importante quebra de paradigmas e o surgimento de um novo modelo assistencial. Antes do final da década de noventa, entretanto, já havia em Portugal médicos que desempenhavam função equivalente à dos hospitalistas norte-americanos. Apenas não recebiam esse nome — e continuaram a ser chamados como sempre foram: internistas hospitalares. Ou, simplesmente, internistas.
Naquele período, o mais comum nas enfermarias européias eram médicos já bastante dedicados. No entanto, usualmente especialistas focais. Havia pressões para modificações nesta realidade; vejam o caso da Itália em vídeo 1 e vídeo 2. Isso era, então, o que eu esperava encontrar em Portugal: uma transição embrionária de modelo hospitalar dividido por departamentos para outro mais integrado, voltado ao paciente complexo multimórbido.
E o que encontrei em Portugal?
A Medicina Interna em Portugal é uma especialidade forte. Os congressos da SPMI, fundada em 1952 e capaz de reunir os principais internistas do país também na platéia, não apenas estudantes de Medicina como aqui, estão atualmente entre os maiores eventos médicos do país. É a especialidade médica portuguesa com maior número de profissionais nos hospitais do SNS.
Internistas portugueses atuam de diversas formas, tal como os brasileiros: em hospitais (enfermarias, pronto-socorros), em consultórios/ambulatórios, em hospitais-dia, hospitalização domiciliar, dor e cuidados paliativos, alguns dedicam-se a assuntos específicos como HIV e doenças autoimunes, entre outras. Uma diferença é que muito menos fazem tudo isto junto, misturado, paralelamente. Outra é o papel central dos internistas portugueses nos hospitais, muito melhor alicerçado.
Se é verdade que a Medicina Interna portuguesa mantém enorme gama de opções profissionais, não é esperado, muito pelo contrário, que o internista português assuma todas as possibilidades durante um mesmo período de tempo. No Brasil, não é incomum ocorrer.
Aliás, acontece aqui até mesmo da pessoa atuar como generalista e arritmologista. Na verdade, usualmente está apenas esperando um lugar ao sol na sua subespecialidade -- o que pode demorar alguns anos, ou mesmo não ocorrer. Enquanto aguarda, trabalha onde existirem oportunidades e acumulando funções. ”Vou fazer 15 anos de formado e não consigo ser mais do que 20% arritmologista, meu verdadeiro sonho”, já disse colega brasileiro que considerava transferir-se da capital para o interior do estado, como forma de, quem sabe, transformar essa realidade. Estava em Porto Alegre e atuando predominantemente em plantões clínicos, salas de emergências e UTI’s. Conquistando seu objetivo, terá sido o internista/emergencista/intensivista que nosso sistema precisa? Será o arritmologista ideal?
Para responder à questão, é preciso avaliar o papel do foco profissional na atualização médica e no refinamento de competências e habilidades, bem como nos resultados em saúde. Por tudo que leio, acredito que esse foco seja essencial, não apenas para subespecialistas, mas também para especialidades com necessidade de um olhar integral do paciente.
Foco significa não apenas reconhecer o que mais se quer no momento, mas dizer não às centenas de outras boas ideias que concorrem. Pode ser temporário. São necessárias, entretanto, algumas premissas que tornem o foco profissional uma escolha possível e sustentável. Somente existirá no Brasil a partir da melhor definição de modelos assistenciais e dos papéis das especialidades médicas, da melhor regulação das vagas de residência e do registro de especialidades, da definição de privilégios clínicos com base em critérios sistêmicos e de novos modelos de gestão de corpo clínico e de remuneração que desfavoreçam, entre outras coisas, o atual multiemprego.
Comentei, durante minha fala oficial no evento da SPMI, que vejo o médico brasileiro, em média, muito bem formado em conhecimentos estritamente técnicos. Mas que lhe falta os não técnicos. Há ainda, e talvez seja o mais importante, carência de um sistema mais bem estruturado por atrás, de melhor organização da relação e da interdependência entre as especialidades médicas, da trajetória do paciente ao longo de sua busca por saúde – das iniciativas preventivas aos cuidados de alta complexidade. Ao paciente do SNS português é estimulado um modelo com generalistas coordenando nos dois braços (hospitalar e ambulatorial).
Contou-me o médico Carlos Vasconcelos, em jantar no Centro de Congressos da Alfândega do Porto, que os internistas do Hospital Geral de Santo Antônio têm, na sua grande maioria, e ele próprio, dedicação exclusiva. Vasconcelos tem esta dedicação voltada predominantemente para o trabalho em enfermaria, assumindo não somente atribuições clínicas, atuando forte em comissões hospitalares, ensino e pesquisa. Então o que isso representa senão o modelo hospitalista? Mas ele e outros, Portugal afora, preferem intitular-se “internistas hospitalares”. E fazem isto com evidente orgulho.
Em síntese, diferente dos internistas brasileiros que estão à deriva no sistema de saúde, em Portugal há um que valoriza mais o generalismo e posiciona especialistas focais predominantemente como consultores. O país tem um desempenho razoável no Euro Health Consumer Index, superando o NHS inglês. Passa a ser considerado muito bom quando avaliada a relação entre os gastos em saúde e os resultados obtidos.
Internistas hospitalares portugueses estão muito fortemente trabalhando formas de comunicação com as unidades básicas de saúde. Por vezes o internista vai até os centros de saúde comunitários, atuando como apoio matricial de médicos de família. A telemedicina tem crescido muito também. A parceria entre internistas e médicos de família portugueses e espanhóis foi algo que me chamou muito atenção, e nos deve fazer refletir sobre nosso silos, sobre nossos tantos exemplos de competições disfuncionais. Sábia e positiva para os pacientes será a busca por colaboração entre internistas brasileiros, médicos de família e comunidade, intensivistas, emergencistas, geriatras e subespecialistas das mais diversas áreas.
No Brasil, é alternativa perseguir estes mesmos caminhos comuns então à Portugal e EUA, com olhar forte para a organização do sistema, e não uma ênfase no nosso contraprodutivo cada um por si.
