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Você sabe o que é CRM aplicado à Saúde?

Atualizado: 23 de jan.

Aprendemos esse conceito nos anos 2000 com Alfredo Guarischi (médico) e Felipe Koeller (piloto e investigador de acidentes aeronáuticos), pioneiros no Brasil no desenvolvimento do “CRM para a Saúde”.


Atividade em 11/11/2024 (acervo pessoal)


CRM, do inglês Crew Resource Management, é um tipo de treinamento que busca o aprimoramento de habilidades não técnicas (em qualquer área de atuação), como comunicação, relacionamento interpessoal, consciência situacional, tomada de decisão, gerencimento do erro e cultura justa. Em outras palavras, trata-se de um treinamento voltado ao trabalho em equipe em ambientes complexos.


Uma das principais estratégias de transformação da cultura da aviação comercial na década de 1980 vem sendo, aos poucos e progressivamente, incorporada à área da saúde. No sistema de saúde do U.S. Veterans Affairs, foram comparados os resultados cirúrgicos de 74 hospitais cujas equipes haviam recebido treinamento CRM com os de 34 hospitais que ainda não haviam implementado o programa. Os resultados demonstraram menor mortalidade nos hospitais que realizaram o CRM. Observou-se ainda uma resposta “dose-dependente”: treinamentos adicionais resultaram em reduções ainda maiores da mortalidade. Embora alguns outros estudos tenham apresentado resultados negativos, o conjunto das evidências contemporâneas apoia a premissa de que o treinamento em trabalho em equipe pode melhorar tanto desfechos clínicos quanto a cultura de segurança.


Os programas de CRM difundiram-se e apresentam hoje grande diversidade de formatos e escopos. Todos, entretanto, concentram-se em melhorar as habilidades de comunicação, moldar um ambiente mais coeso, encorajar os profissionais a expressarem suas preocupações e lidar com os erros de forma predominantemente não punitiva. Alfredo Guarischi e Felipe Koeller criaram pioneiramente no Brasil para a saúde o GERHUS – Gerenciamento de Recursos Humanos na Saúde. Conheça melhor bastidores dessa história aqui. Após o CRM deles, outras iniciativas surgiram em nosso país, o que é extremamente positivo — e mais do que isso, fundamental.


Robert Wachter, especialista de renome internacional em segurança do paciente e quem cunhou o termo hospitalistas , defende — com base na literatura e em sua própria experiência na University of California, San Francisco (UCSF) — algumas premissas importantes, entre elas a de utilizar a aviação e outras analogias externas à saúde, mas sem exageros. Segundo ele, na UCSF, a participação de pilotos de avião em alguns treinamentos foi bastante útil. Esses profissionais conseguem relatar, a audiências formadas por médicos e outros profissionais da saúde, que sua cultura era muito semelhante à deles e que, inicialmente, participaram dos programas de treinamento de forma relutante. Com o tempo, porém, passaram a acreditar que esse tipo de treinamento é essencial para melhorar a segurança e reduzir erros.


Profissionais da saúde tendem a apontar rapidamente as diferenças entre a sala cirúrgica ou o PS e a cabine de um avião. E elas existem mesmo, mas não invalidam um aproveitamento. Uma delas, de acordo com o próprio Wachter, está no fato de que a equipe do cockpit é composta por dois ou três indivíduos com treinamento, expertise, renda e classe social semelhantes, trabalhando a portas fechadas. Eliminar hierarquias nesse contexto é muito mais simples do que fazê-lo em uma emergência superlotada. Essas e outras diferenças indicam que os exemplos da aviação devem ser rapidamente substituídos por exemplos da própria área da saúde — algo que Alfredo e Felipe perceberam fácil, como ilustra esse vídeo.


Wachter também ressalta que não se pode esquecer que são as organizações que estabelecem os comportamentos, mentalidades e atitudes que medem e controlam. Segundo ele: “Precisamos mudar de um raciocínio focado em ‘uma intervenção para treinar equipes’ para outro que vise a criação e a sustentação de um sistema organizacional que apoie o trabalho em equipe. O melhor treinamento não alcançará os resultados desejados se a organização não estiver alinhada para apoiá-lo". Guarischi, por sua vez, constumava reforçar pontos ainda mais básicos: as organizações precisam se convencer da importância desse tipo de treinamento. Uma vez convencidas, devem envolver todos os profissionais — e não apenas médicos, como algumas propõem. Caso seja necessário limitar o número de participantes, o ideal é fazê-lo preservando o caráter multidisciplinar da atividade.


Leituras complementares

  1. Neily J, Mills PD, Young-Xu Y, et al. Association between implementation of a medical team training program and surgical mortality. JAMA 2010;304:1693-1700.

  2. Dunn EJ, Mills PD, Neily J, et al. Medical team training: applying crew resource management in the Veterans Health Administration. Jt Comm J Qual Patient Saf 2007;33:317-325.

  3. Mayer CM, Cluff L, Lin WT, et al. Evaluating efforts to optimize TeamSTEPPS implementation in surgi

    cal and pediatric intensive care units. Jt Comm J Qual Patient Saf 2011;37:365-374.

  4. Weaver SJ, Rosen MA, DiazGranados D, et al. Does teamwork improve performance in the operating room? A multilevel evaluation. Jt Comm J Qual Patient Saf 2010;36:133-142.

  5. Wolf FA, Way LW, Stewart L. The efficacy of medical team training: improved team performance and decreased operating room delays. Ann Surg 2010;252:477-485.

  6. Morey JC, Simon R, Jay GD, et al. Error reduction and performance improvement in the emergency department through formal teamwork training. Health Serv Res 2002;37:1553-1561.

  7. Riley W, Davis S, Miller K, et al. Didactic and simulation nontechnical skills team training to improve perinatal patient outcomes. Jt Comm J Qual Patient Saf 2011;37:357-364.

  8. Nielsen PE, Goldman MB, Mann S, et al. Effects of teamwork training on adverse outcomes in labor and delivery. Obstet Gynecol 2007;109:48-55.

  9. Gerenciamento de recursos humanos na saúde (GERHUS): como as práticas da aviação e das forças militares especiais são aplicáveis à saúde

 
 
 
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