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Clínica Médica no Brasil: Entre a Vocação Generalista e a Sustentabilidade da Carreira

Atualizado: há 18 horas


A Medicina Hospitalista brasileira, aplicada a pacientes adultos, é um case interessante para observar e analisar a Clínica Médica no país — seus desafios históricos, sua situação atual e algumas questões que se colocam para o futuro da especialidade. O mesmo exercício de reflexão caberia aos pediatras, apenas sinto-me limitado para fazer por eles.


O movimento de MH no Brasil surgiu literalmente dentro de um serviço de Medicina Interna em Porto Alegre — no bom português, usando o termo nacionalmente oficial: Clínica Médica. Preferíamos utilizar ‘Medicina Interna’, e acredito seja assim até hoje, em parte pela boa reputação em outros países, em parte pela própria Clínica Médica no Brasil carregar imagem um tanto desgastada.


Éramos jovens, munidos de um vocabulário novo, incorporando de fato novos conhecimentos e altamente energizados pelo propósito de construir unidade, representatividade e associativismo efetivo, carentes em nosso meio. No fundo, porém, éramos simplesmente clínicos de adultos em busca de um espaço mais estratégico e de uma carreira que fosse sustentável ao longo do tempo — algo que transcendesse o plantonismo que era o caminho mais comumente oferecido aos internistas nos hospitais.


Hoje, olhando para aquele grupo inicial, há um dado curioso: quase nenhum daqueles jovens segue atuando em Clínica Médica. Dois tornaram-se pneumologistas dedicados exclusivamente à área focal. Há também um hematologista e um anestesiologista em situação semelhante. No meu caso, as circunstâncias da vida conduziram-me à UTI, à gestão de qualidade e ao tal plantonismo — embora eu mantenha um profundo interesse em atuar em programas de Clínica Médica Hospitalar, com ainda mais seletividade do que antigamente. Sigo acreditando, inclusive, que sou um internista melhor do que intensivista. Entre esses colegas que mencionei antes, nem todos teriam sido necessariamente mais felizes permanecendo na Clínica Médica, mas ouso dizer que a maioria, sim.


Com o tempo, novos jovens chegaram ao mesmo serviço. Foram residentes formados pelos que haviam iniciado o movimento. Também ali as trajetórias foram diversas. Entre os mais engajados e promissores, houve quem migrasse para carreira executiva – tornou-se um muito bem-sucedido diretor de hospitais; houve a minha melhor residente de Medicina Interna, que acabou sendo arrastada para a Hematologia — a vida de internista lhe deu muitas rasteiras. Poucos permaneceram efetivamente na Clínica Médica.


Se esse tipo de trajetória não nos convida à reflexão, torna-se difícil encontrar sentido em organizar pares ou manter qualquer movimento associativo dentro de uma área médica.

Tive a oportunidade de conhecer muitos dos nomes mais atuantes no associativismo da medicina hospitalar norte-americana e acompanhar de longe suas trajetórias nos hospitais. Vi, então, dezenas de jovens hospitalistas tornarem-se profissionais experientes, hoje caminhando gradualmente para o final de suas carreiras — sempre com os pés na enfermaria, cuidando de pessoas à beira de leitos. Naturalmente, alguns migraram para funções em qualidade e segurança ou para posições executivas. Isso é saudável e, muitas vezes, potencializado pela própria prática hospitalista, que ensina sobre a complexidade do hospital como poucas outras áreas de atuação. O que chama atenção — e deveria acender um alerta — é quando essa mudança deixa de ser uma escolha e passa a ser quase uma necessidade.


Algo semelhante também pode ser observado em outras profissões da saúde no Brasil. Na enfermagem, por exemplo, não é incomum que muitos profissionais clínicos passem a ver na promoção para funções administrativas a luz no fim do túnel - contam os dias para se afastar da assistência direta. É curioso pensar nisso em profissões que, em sua essência, nascem do desejo verdadeiro de cuidar de pessoas.


Recentemente, um artigo publicado na revista The Hospitalist e assinado por Thomas Sullivan (Being a Hospitalist in Your 60s and 70s) abordou uma pespectiva interessante: o envelhecimento dos profissionais em uma especialidade que nasceu jovem. Vale lembrar que a Medicina Hospitalar foi formalmente descrita nos Estados Unidos em 1996, quando se definiu o papel de médicos dedicados predominantemente ao cuidado de pacientes hospitalizados. Desde então, incorporou uma legião de jovens médicos, em um ritmo de crescimento que a coloca como a área de atuação médica que mais rapidamente se expandiu na história da medicina moderna.


Durante muitos anos, ela foi vista como uma carreira típica de médicos jovens. Três décadas depois, porém, a primeira geração de hospitalistas começa a chegar aos 60 — e isso traz novas questões: se os hospitais não adaptarem suas estruturas e modelos de trabalho às mudanças fisiológicas do envelhecimento, correm o risco de perder justamente seu capital humano mais experiente no momento em que a população de pacientes — também ela cada vez mais idosa — mais precisa desse tipo de expertise.


No Brasil, infelizmente, ainda estamos longe de um ponto de equilíbrio e maturidade que permita discutir esse tipo de sustentabilidade profissional — uma que reconheça e incorpore o valor inestimável da experiência. Experiência que se traduz em competências potencialmente mais sólidas em áreas como navegação no sistema, sustentada por um domínio mais profundo da dinâmica hospitalar e de sistemas complexos; comunicação e empatia; e também mentoria. Aqui, ainda precisamos reter os jovens talentos.


O testemunho de um médico que se aposentou aos 70 anos, mencionado no artigo acima, resume a condição atual deles lá: "a paixão pela cura e pelo ensino permanece, mas o sistema de trabalho precisa ser redesenhado para permitir que o médico “envelheça bem” dentro do hospital". No Brasil, em fase evolutiva mais embrionária, talvez devêssemos estar profundamente preocupados em refletir sobre como manter jovens brilhantes exercendo um papel imensamente importante: cuidar diretamente de pessoas, sob a perspectiva da coordenação do cuidado. O risco é fazermos com eles o mesmo que fizemos com nossos professores da rede escolar.

 
 
 

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